EXCLUSIVO – Cientista brasileira fala sobre as consequências de um ataque à usina do Irã e a importância da energia nuclear no mundo

Professora e Mestre em Tecnologia Nuclear, Eliana Rodrigues Leite concedeu entrevista exclusiva ao portal de notícias Rede Digital News (RDN)

Miguel Leite

De São Paulo

A escritora, professora de Matemática, Física, Mudanças Climáticas  e Mestre em Ciências de Tecnologia Nuclear, Eliana Rodrigues Leite, concedeu entrevista exclusiva ao portal Rede Digital News (RDN) e alertou sobre as consequências de contaminação radioativa que podem ocorrer, caso a usina nuclear do Irã seja bombardeada, na atual guerra entre o país e Israel, no Oriente Médio.

Antes de entrar diretamente no tema a professora faz uma explanação geral sobre a criação das armas nucleares no mundo. “Acredito que desde que armas nucleares foram criadas a possibilidade real de uma guerra nuclear existe. A questão é quando. E esse quando se torna mais próximo, mais distante ou até mesmo improvável de acordo com como os movimentos geopolíticos ocorrem”, avalia a Mestre em Tecnologia Nuclear.

Eliana Rodrigues Leite relata que desde a descoberta da Energia Nuclear essa área das ciências tem se desenvolvido imensamente. O conhecimento dessa energia para a população em geral se deu quando as bombas atômicas foram lançadas em alvo civil sobre Hiroshima e Nagasaki no Japão em 1945, quando a era da energia nuclear mostrou ao mundo o poder de destruição das armas nucleares, uma ameaça à paz no planeta. Após a Segunda Grande Guerra Mundial houve em uma conferência o encontro histórico entre o primeiro Ministro Britânico Winston Churchill, o presidente norte americano Franklin Delano Roosevelt e o líder soviético Joseph Stálin. Esse encontro promoveu o estabelecimento de valores universais como a paz, por meio da segurança coletiva e a construção de uma ordem mundial duradoura. Uma das ações planejadas foi a criação Organização das Nações Unidas (ONU) ainda em 1945, na Califórnia, com a incumbência de promover a cooperação internacional e hoje conta com 193 estados membros, inclusive o Brasil. Nos dois anos seguintes a criação da ONU, a configuração global em superpotências bélicas detentoras de armas nucleares, se consolidou assim como a Guerra Fria. E a iminência de uma Guerra Nuclear, “o quando” se tornou muito próximo.

A professora destacou também que a Guerra Fria em curso em 1953, Eisenhower, o então Presidente dos EUA, trouxe a Energia Nuclear aos holofotes com o discurso histórico “Átomos para Paz” projeto determinante para o uso não bélico da energia nuclear. Embora seja um organismo independente é relacionada à ONU a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) foi criada em 1957 com a finalidade de ser responsável pelo confisco, armazenamento e proteção de materiais radioativos, aplicação da energia nuclear à medicina agricultura, fornecer energia elétrica em áreas do mundo carentes de energia e a quaisquer outros fins pacíficos. Dessa forma “o quando” parecia ter se tornado muito distante. Porém, a AIEA não foi suficiente para evitar o surgimento de novos programas nucleares. EUA e URSS, em 1960, propuseram um regime internacional de não proliferação e desarmamento nuclear após anos de debate em 1968 o Tratado de Não Proliferação Nuclear(TNP) foi aberto para assinatura no mesmo ano e entrou em vigor em 1970. Em 1995, o tratado foi prorrogado por tempo indeterminado. O Brasil assinou o TNP em 1998. Atualmente, 191 países-membros da ONU aderiram ao tratado inclusive o Irã e Israel não. O TNP não conseguiu evitar os programas nucleares na Índia, Paquistão e talvez Corea do Norte, por exemplo. Os países que já possuíam armas nucleares continuam com elas e são responsáveis por sua guarda.

ENTREVISTA

Rede Digital News – Na iminência de uma guerra nuclear que pode ser iniciada por ordem do presidente Donald Trump, dos EUA, que anunciou que pretende bombardear as instalações de enriquecimento de urânio no Irã, quais são os verdadeiros riscos que a população do Irã pode enfrentar se de fato ocorrer esse ataque às instalações nucleares do Irã?

Professora Eliana Rodrigues Leite – “O programa nuclear Iraniano é constituído de instalações de tipos distintos e para finalidades também distintas e não são muitas. É preciso lembrar que estamos falando de um país de regime não democrático e até onde se sabe a imprensa não é livre de restrições. O inventário de plantas nucleares é o que é de conhecimento da AIEA. As informações que possuo são de fontes públicas e agências de notícias consideradas confiáveis e meu conhecimento em reatores e materiais nucleares é o mínimo exigido de qualquer estudante de pós-graduação no Ipen, pois todas as instalações nucleares ou que fazem uso de material radioativo produzem rejeitos e esse sim é meu objeto de estudo”.

Rede Digital News – O material radioativo dispersado em havendo o bombardeio das instalações de enriquecimento de urânio ou da única Usina Nuclear operacional no Irã pode ser transportado pelo ar, ou por outros meios aos demais continentes do planeta, ou essa possibilidade é descartada?

Professora Eliana Rodrigues Leite – “Nas instalações de enriquecimento de urânio segundo os pesquisadores, a que recorri às produções científicas, o maior risco é químico e não radiológico. Caso o hexafluoreto de urânio, que é parte do processo do ciclo de produção do combustível nuclear, entre em contato com vapor d’água no ar produz substâncias químicas nocivas à saúde. São instalações subterrâneas e uma delas em profundidade maior, foram projetadas para manter a segurança e o material confinado. Quanto ao urânio é um radionuclídeo de baixa atividade emissor de radiação alfa que tem pouquíssimo alcance, pode ser blindado por uma folha de papel. Como todo emissor alfa é perigoso se incorporado por inalação, ingestão ou absorvido pela pele. Não que não haja risco nessas instalações, mas são muito, muito menores de que os comparados ao núcleo de um reator exposto. Para utilização em reatores de pesquisa ou comerciais para geração de eletricidade ou dessalinização o enriquecimento varia de 3% a 20%. Para uma arma nuclear precisaria chegar a 90%. Quanto à mineração de urânio respeitadas as normas protocolares temos o exemplo aqui em Poços de Caldas (MG), minas já exauridas e as operacionais em Caitité, na Bahia. Na minha ignorância de estrategista de guerra bombardear uma mina de urânio causaria danos à continuidade do programa nuclear iraniano certamente. Já bombardear a única Usina Nuclear em operação sim, seria uma catástrofe. Mesmo assim devo lembrar que a indústria nuclear possui um grau de segurança elevadíssimo e as construções são robustas de resistência tão elevadas quanto. Não são indestrutíveis, nada é e considerando que a Usina é um alvo, existem protocolos de segurança, planos de evacuação para mitigar as consequências. Creio que não se possa comparar a Chernobyl, outro tipo de reator, omissão das autoridades, tempo exagerado de resposta ao acidente, omissão de informação não há comparação. Se acontecer, e acreditemos que não, se ocorresse a destruição do vaso do reator e o núcleo ficasse exposto o problema seria não só o urânio enriquecido do combustível, mas os inúmeros radionuclídeos de produtos de fissão emissores de radiação corpuscular particulada alfa e beta e gama que é eletromagnética. Danos imensos a saúde dos seres vivos e não só no Irã. Material radioativo dispersado no ar é levado pelo vento depositado no solo e na água. A radiação não reconhece fronteiras geopolíticas, assim como a emissão de gases de efeito estufa também não. É como jogar lixo fora, não tem lá fora, o planeta é um só”.

Rede Digital News – Dentro de tudo que a senhora já estudou e tem acompanhado pela Agência Internacional de Energia Atômica, o Irã produz bomba atômica, ou é tudo uma especulação armada pelos EUA, colocando Israel como laranja em todo esse fato alarmante para o mundo?

Professora Eliana Rodrigues Leite – “Conhecimento para produzir tem, nós temos e muitos outros países também têm, mas vão produzir? Irã é signatário de o TNP, Israel não. Não sou cientista política, mas a mim me parece, que chega ser uma contradição, um país que não endossa a não proliferação de armas nucleares atacar outro que é signatário do tratado sob o argumento de que este estaria produzindo a arma nuclear e por isso colocando em risco o seu país, no caso Israel. O programa nuclear iraniano existe por outros motivos como o brasileiro, pesquisa, medicina, agricultura, geração de eletricidade e conversão de água salgada em potável é uma necessidade. O argumento ou “pretexto” de Israel para atacar o Irã foi exatamente à divulgação da AIEA de que o Irã teria violado o TNP enriquecendo urânio a 60% de pureza, se evoluir para 90% terá matéria prima para produzir armas nucleares. Por outro ângulo de análise, se o Irã, ou outro país detentor de tecnologia para produzir mais uma ou umas bombas nucleares, será mais uma ou umas a serem acrescentadas ao arsenal nuclear que o mundo já possui e que não é pequeno. Em 2002 na UMC (Universidade de Mogi das Cruzes-SP), quando escrevi o primeiro texto intitulado Lixo Nuclear ou Rejeito Radioativo o inventário de armas nucleares contabilizava 27.710 armas nucleares em oito países, sendo 16 mil na Rússia e 11 mil nos EUA,  temos armas nucleares para destruir vários planetas Terra e só temos um”.

Rede Digital News – A senhora acredita que o mundo está subestimando o risco radiológico deste conflito? O que os órgãos internacionais deveriam estar monitorando de forma mais atenta neste exato momento?

Professora Eliana Rodrigues Leite – “Não, não acredito que as pessoas sérias e não ignorantes do problema no mundo estejam subestimando esse conflito e acredito também que a AIEA esteja realizando suas funções a contento. Prefiro acreditar na DMA Destruição Mútua Assegurada, ninguém vai lançar uma bomba nuclear por conta da certeza do revide e ninguém vai sobreviver. O problema não é esse, o problema é a disputa de poder seja ele político, econômico, religioso ou territorial. A fogueira da vaidade da futilidade do esvaziamento de humanidade cegou o mundo banalizou a vida. Temos problemas muito maiores e mais urgentes para solucionar de que o país a ou b produzir uma arma nuclear. A frase célebre de autoria atribuída a Einstein: Duas coisas são infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza”.

Rede Digital News – Para finalizar esta entrevista o que mais a senhora poderia destacar sobre o tema?

Professora Eliana Rodrigues Leite – “Gostaria de lembrar que em Fukushima muitas mortes foram causadas por medo e não por irradiação. O pânico causou acidentes com veículos, desencadeou problemas cardíacos, remoção de pacientes de hospitais que não poderiam ser movimentados e a interrupção de fornecimento de energia. O conhecimento, ou ao menos a informação sobre tecnologia nuclear teria evitado mortes em Fukushima como teria evitado também em Goiânia e Chernobyl. A Tecnologia Nuclear tem inúmeras aplicações pacíficas necessárias ao aprimoramento e manutenção da vida e precisam ser conhecidas por todos. Não estou sugerindo que todos sejam cientistas ou físicos nucleares, mas que tenham informação relevante para que possam usufruir dos benefícios da Tecnologia Nuclear e isso só será possível por meio da educação. A energia nuclear é uma das alternativas para a transição energética imprescindível, as pessoas precisam ter conhecimento para sobre a transição energética, aceitar e promover. Exigir que o programa nuclear iraniano seja interrompido em sua totalidade é extirpar da população o direito de usufruir dos benefícios dessa tecnologia, não é razoável e nem justo. Neste último mês de março o Ipen sofreu um ataque cibernético e teve que interromper a produção de radiofármacos por semanas, pessoas deixaram de realizar exames de diagnóstico por imagem e interromper tratamentos oncológicos e cardíacos. Não produzir armas nucleares é um dever, interromper um programa nuclear é um crime contra a sociedade”.

(Foto: Arquivo Pessoal)

APRESENTAÇÃO – Eliana Rodrigues Leite

Professora de Matemática, Física e Mudanças Climáticas e Energias do Futuro

Licenciada em Ciências Exatas/ Matemática pela Universidade de Mogi das Cruzes – UMC

Mestre em Ciências de Tecnologia Nuclear – Aplicações pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, da Universidade de São Paulo Ipen/ USP

Especialista em Gestão de Projetos pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo – Esalq/USP

E autora do livro:

“Indicadores de Segurança para um Depósito Final de Fontes Radioativas Seladas”

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