”Nikolas Ferreira, a Psicologia das Massas e a função do herói – uma leitura freudiana do fenômeno coletivo”

Dra. Luciana Inocêncio*

Deputado federal mais votado da história de Minas Gerais e o mais votado do Brasil nas eleições de 2022, Nikolas Ferreira (PL) monopolizou as atenções na última semana ao organizar a “Caminhada por Liberdade e Justiça”. O parlamentar saiu de seu estado de origem, sozinho, na segunda-feira (19), e chegou seis dias e muitos quilômetros depois ao destino final, em Brasília (DF), acompanhado de milhares de pessoas que encontraram em suas palavras ou em sua agenda conexão.

Enquanto muitos se uniram ao jovem liberal na marcha, e outros, mesmo que à distância, admiraram e torceram pelo ato, houve quem criticasse – e até aí, tudo bem. Afinal, Democracia, no sentido mais amplo da palavra, se forja, também, na discordância. O interessante, contudo, é analisar como tudo isso se deu, entre idolatria e julgamentos, à luz da Psicologia.

Quando a dor coletiva se torna insuportável, a massa não pergunta quem é o mais virtuoso, ou quem tem menos pecados para representá-la. Ela busca por quem suporta ocupar o lugar que ficou vazio, longe do perfeccionismo moral. E, o vazio, aqui, é estrutural e acomete, geralmente, os extremos na estrutura Política.

Do ponto de vista da Psicologia das Massas, Sigmund Freud defendia que o comportamento coletivo não é uma simples soma de indivíduos racionais. Tal formulação é central. Quando o indivíduo se insere de forma comunitária, ele não apenas se dilui nela; ele transfere para o comandante funções psíquicas que já não consegue sustentar sozinho — como esperança, ordem, direção moral e sentido. Este líder passa, então, a funcionar como um eixo organizador do psiquismo coletivo. Historicamente, este mecanismo se repete. Não é moda; é estrutura. Tem método.

A figura de Jesus, por exemplo, pode ser compreendida — do ponto de vista psicológico, e não teológico — como alguém que ocupou lugar indiscutivelmente simbólico na humanidade, mesmo sem contar com aparato institucional, sem o apoio do Exército e sem o mínimo de proteção. À época, Cristo encarnou um ideal que já não encontrava sustentação nas estruturas vigentes.

Na contemporaneidade, tal fenômeno reaparece em figuras que provocam, incomodam e polarizam, justamente porque ocupam um lugar que muitos recusam por medo das inúmeras consequências, incluindo as sociais, políticas e jurídicas. Sim, para ocupar este espaço, é preciso mais que carisma! É imprescindível deter coragem e (arrisco) um certo flerte com a inconsequência.

Ainda na esteira da análise freudiana, enquanto homens são atacados, o mecanismo psíquico que os produziu continua ativo. Indivíduos passam, mas os símbolos não se rendem; permanecem. Ideias não sangram e se preciso, elas mudam de hospedeiro.

Em algum momento da História, um líder, a exemplo de Nikolas e de outros tantos que o antecederam, pode até cair, mas sua função simbólica permanece disponível para ser ocupada novamente.

O que significa dizer que o instinto coletivo não desaparece. Ele atravessa o tempo. Quando tentam silenciá-lo, ele se desloca. Quando tentam esmagá-lo, ele se reorganiza. Quando tentam apagá-lo, ele se multiplica.

Dra. Luciana Inocêncio é psicóloga, psicanalista, palestrante e escritora; especialista em Transtornos Graves das Psicoses, pelo Colégio de Psicoanalísis de Madrid (Espanha); especialista em Psicologia Hospitalar e em Especialidades Médicas, pela Universidade de São Paulo (USP); especialista em Psicologia Clínica e em Teoria Psicanalítica, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC); tem formação em Psicanálise, pela Escola Brasileira de Psicanálise; e formação em Psicologia | Bacharel e Licenciatura, pela Universidade Braz Cubas (UBC); é autora dos livros “Psicanálise Presente na Vida Cotidiana”, “As Aventuras de Elvis”, “A Comida como Fuga Emocional”, “O Poder da Terapia na Terceira Idade”, e “Narcisistas”

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